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Saber Cuidar |
7. Cuidado com a cura integral do ser humano
A cura integral do ser humano é tão importante que demanda um prolongamento de nossa reflexão anterior. Nas grandes tradições terapêuticas da humanidade sempre houve a percepção de que a cura é um processo global, envolvendo a totalidade do ser apenas e não a parte enferma. Reportemo-nos a nossa tradição ligada á figura de Asclépio (dos gregos) ou de Esculápio (dos latinos). Dessa tradição vem o pai da medicina clássica e moderna, Hipócrates (460-377 aC).
Asclépio era, historicamente, um herói curador que possuía seu centro em Epidauro, no coração da Grécia. Por mais de mil anos acorriam ao seu templo os enfermos de todas as partes do mundo antigo. A eficácia de seus métodos era de tal ordem que, após a sua morte, Asclépio acabou sendo divinizado. Simultaneamente homem e deus sinalizava que a cura seria completa se resultasse da intervenção humana e divina, se fosse corporal e espiritual.
No pórtico de seu templo os enfermos podiam ler o lema básico de sua medicina:
"Puro deve ser aquele que entra no templo perfumado. Pureza é ter pensamentos sadios”.
Chamava-se a isso de nooterapia, terapia da mente (noons em grego significa mente) que implicava num processo de redeflnição de atitudes e de valores. Os cristãos até hoje chamam a isso de conversão (metanoia). Os pecados (harmatiai), isto é, as atitudes desarmônicas consigo mesmo, com os outros, com o cosmos e com a Fonte originária de tudo, deslancham processos que afetam o equilíbrio físico-psíquico-espirituais do ser humano. Em outras palavras, produzem doenças.
A cura acontece quando se cria um novo equilíbrio humano. Então o pecado-doença dá lugar à graça-cura. Em Epidauro as curas eram processadas de forma holística, através de métodos diferenciados pela dança, música, ginástica, poesia, ritos e sono sagrado. Havia o Abaton, santuário onde os enfermos dormiam para terem sonhos de comunhão com a divindade que os tocava e curava. Havia o local onde se podia ouvir música tranquilizadora e eram lidos poemas de enlevo. Havia o Ginásio, onde se faziam exercícios físicos integradores da mente/corpo. Havia o Estádio para esportes de competição controlada para melhorar o tônus corporal. Havia o Teatro para dramatização de situações complexas da vida para desdramatizá-las e facilitar a cura. Havia a Biblioteca, onde se podia consultar livros, admirar obras de arte e participar de discussões sobre os mais diversos assuntos. Tudo isto, já naqueles tempos, era visto como forma de terapia holística. A moderna medicina alternativa não faz outra coisa senão resgatar esta memória terapêutica de nossa própria ti abafada pelo paradigma cientifista dominante, que tenta a cura enfatizando o tratamento das partes doentes pela química dos remédios sem a consideração do todo humano.
Foi neste contexto integrador do cuidado total com o ser humano que o poeta Décio Júnior Juvenal (60-130 dC) escreveu o famoso verso criticando os excessos na culinária dos romanos:
“Deve-se buscar uma mente sã num corpo são”. “Orandum est mens sana in corpore sano” (Sátiras X, 356).
Muitas academias de ginástica atuais incorporam esse lema mens sana in corpore sano - quase sempre esquecendo a dimensão espiritual da mente (mens sana) e enfatizando apenas a exuberância muscular do corpo (corpore sano). A arte terapêutica é mais que médica; é integral, portanto profundamente espiritual.
Concluindo, cuidar de nossa saúde significa manter nossa visão integral, buscando um equilíbrio sempre por construir entre o corpo, a mente e o espírito e invocar o médico (corpo), o terapeuta (mente) e o sacerdote (o espírito) para trabalharem juntos visando a totalidade do ser Inumano.
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